Posicionamento

Conteúdo com a sua cara: como achar o jeito do seu consultório comunicar

Seu perfil parece com o de todo mundo? Um caminho prático para transformar o que você acredita e como atende em posicionamento.

· 7 min de leitura

Conteúdo com a sua cara: como achar o jeito do seu consultório comunicar

Faça um teste rápido. Abra o Instagram, procure "dentista" mais o nome da sua cidade e entre nos cinco primeiros perfis. Repare na paleta bege, no sorriso em close, na legenda que começa com "Você sabia que...". Agora tampe o nome do perfil com o dedo. Dá para saber quem é quem?

Quase nunca dá. E esses perfis costumam ser caprichados, com boas fotos, agenda de posts e identidade visual feita por designer. Mesmo assim, falta neles a única coisa que template nenhum entrega: a pessoa que atende.

As próximas linhas tentam ajudar a encontrar essa pessoa no seu feed. Valem para médico, dentista, fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga, fonoaudióloga e para qualquer profissional que já rolou o próprio perfil e pensou que aquilo poderia ser de qualquer colega.

Por que tantos perfis de saúde ficaram parecidos

Uma parte da explicação é volume. O Brasil nunca teve tantos médicos ativos, e levantamentos citados pelo Medicina S/A indicam que cerca de 37% deles publicam conteúdo nas redes. Junte a isso dentistas, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos, e fica fácil entender por que tanta gente fala dos mesmos temas para o mesmo público.

A outra parte vem do jeito de começar. A gente copia o que parece dar certo: o carrossel de "5 sinais de que", o reels com áudio em alta, a foto de bancada. Funciona por uns meses, até todo mundo fazer igual. Daí em diante o paciente já não distingue um perfil do outro e acaba decidindo pelo preço ou pela distância de casa.

E o paciente olha, sim. Uma reportagem do Jornal do Brás descreve algo que qualquer recepcionista confirma: antes de agendar, a pessoa pesquisa, compara e acompanha a rotina do profissional por um tempo. Detalhamos esse comportamento no texto sobre como o paciente escolhe um profissional de saúde pela internet. Se ela encontra no seu perfil o mesmo que viu no do vizinho, você perde a chance de ficar na memória.

Há um elemento recente nessa história. No fim de 2025, Adam Mosseri, chefe do Instagram, publicou um memorando dizendo que a autenticidade está ficando "infinitamente reproduzível" com a inteligência artificial e que imagens menos polidas tendem a sinalizar que existe alguém real do outro lado (o Om Malik comentou o texto em janeiro). Traduzindo para o consultório, a foto perfeita e genérica perde valor, e a sua opinião e o seu jeito de falar ganham.

Posicionamento começa no que você acredita sobre o seu trabalho

Logotipo, paleta e bordão na bio ajudam alguém a reconhecer o seu perfil. Só que nada disso conta quem está nele. Posicionamento nasce antes, nas convicções que você já tem e talvez nunca tenha posto em palavras.

Pense no que você defende quando ninguém está gravando. O que repete para os pacientes, o que te incomoda na sua área, aquilo que você faz de um jeito próprio e sabe explicar por quê.

Alguns exemplos para destravar:

  • A nutricionista que acha que dieta restritiva dura até o primeiro almoço de domingo com a família, e por isso monta planos com a comida que a pessoa já gosta.
  • O fisioterapeuta esportivo que dá ao corredor amador o mesmo cuidado de retorno ao treino que daria a um atleta profissional.
  • A psicóloga que defende começar a terapia antes da crise.
  • O dentista convencido de que boa parte do medo de dentista vem de experiências ruins na infância, e que organiza o atendimento inteiro em torno disso.

Cada uma dessas frases tem um ponto de vista dentro, e é isso que rende assunto. A partir de uma única convicção você explica, dá exemplo, responde dúvida e conta o que vê no consultório durante meses.

Um exercício: escreva, sem pensar muito, cinco frases que comecem com "Eu acredito que, na minha área...". Depois risque as que qualquer colega assinaria sem hesitar. As que sobrarem são o começo do seu posicionamento.

Quem você atende hoje e quem quer atender amanhã

A segunda peça é o público, e aqui costumam vir misturadas duas coisas diferentes.

Uma é quem chega hoje à sua agenda. A outra é quem você gostaria que chegasse. Às vezes coincidem, muitas vezes não. A fonoaudióloga que atende muitos adultos com disfonia talvez queira crescer entre professores. O ortopedista que recebe de tudo talvez queira virar referência em joelho de corredor.

O conteúdo é a ferramenta mais barata que você tem para fazer essa ponte. Quando você fala com clareza para um grupo específico, quem se reconhece presta atenção, salva e manda para um amigo. Quem não se reconhece passa direto, e está tudo certo. O perfil que tenta agradar a qualquer pessoa termina sem ninguém que se sinta chamado.

Para organizar o pensamento, responda por escrito:

  1. Pense nos últimos pacientes que você mais gostou de atender. O que eles tinham em comum?
  2. Que dúvida eles traziam antes da primeira consulta?
  3. Que problema eles já tinham tentado resolver em outro lugar?
  4. Se a sua agenda ficasse cheia só com um tipo de caso, qual você escolheria?

As respostas mostram para quem você está escrevendo.

Tom de voz: como você fala no consultório vale para o feed

Você tem um jeito de explicar as coisas. Talvez use analogia de cozinha, talvez desenhe no papel, talvez vá direto ao ponto ou prefira acolher antes de explicar. Seus pacientes conhecem esse jeito. Na hora de escrever uma legenda, porém, muita gente abandona a própria voz e adota um "tom de Instagram" que ninguém usa fora do aplicativo.

Um teste prático: grave no celular você mesmo explicando um conceito para um paciente imaginário, sem ninguém real em cena. Depois transcreva. Com pequenos ajustes, aquele texto costuma sair melhor do que qualquer legenda escrita de cabeça, porque tem as suas pausas, os seus exemplos e o vocabulário que você de fato usa.

A mesma lógica vale para as ferramentas de inteligência artificial. Elas aceleram muito a escrita, mas puxam o texto para a média. Se você quer preservar a sua forma de falar, leia o guia sobre como usar IA no conteúdo de saúde sem perder a sua voz, que traz exemplos de comandos e de revisão.

Dois cuidados com o tom. Proximidade não autoriza imprecisão técnica. E precisão técnica não precisa virar aula de faculdade. O equilíbrio é o mesmo que você já acha todo dia na sala de atendimento.

A cara do consultório: ambiente, equipe e rotina como conteúdo

O posicionamento também aparece no que está à sua volta. A recepcionista que lembra o nome de todo mundo. A sala de espera com brinquedos porque metade dos pacientes vem com filho. O café que você passa antes do primeiro horário. A esteira nova da clínica de fisioterapia.

Esses detalhes dizem mais sobre você do que um post explicando "nossos valores", porque o paciente vê com os próprios olhos. Também combinam com o que o Instagram vem sinalizando sobre conteúdo com cara de gente real.

Algumas ideias que respeitam a ética e a privacidade:

  • Bastidores da preparação de um procedimento, sem paciente em cena.
  • A equipe respondendo uma dúvida frequente, cada um do seu jeito.
  • A história da clínica desde a inauguração, contada por você.
  • Um dia comum de atendimento, mostrando o ritmo da casa sem expor ninguém.

Antes de mostrar qualquer coisa que envolva paciente, resultado ou procedimento, confira o que o seu conselho permite. As regras mudam bastante de uma profissão para outra, e o guia sobre o que cada conselho de saúde permite postar nas redes ajuda a evitar dor de cabeça.

Três perguntas para testar se um post tem a sua cara

Antes de publicar, passe o conteúdo por este filtro.

Se eu tirar meu nome, alguém que me conhece saberia que fui eu? Se a resposta for não, falta opinião, exemplo próprio ou o seu jeito de falar.

Esse post conversa com quem eu quero atender? Um conteúdo pode ser ótimo e, mesmo assim, atrair o público errado.

Eu diria isso em voz alta para um paciente? Se a frase soaria estranha no consultório, provavelmente soa estranha no feed também.

Nem todo post precisa passar nas três. Um bastidor leve pode se sustentar só na primeira. Agora, se nenhuma delas se confirma, vale reescrever.

Do posicionamento ao plano de conteúdo

Com essas respostas no papel, dá para planejar. Sem elas, toda segunda-feira começa com a mesma pergunta: o que eu posto hoje? Com elas, você tem temas que voltam com variação, e a produção pesa bem menos.

O passo seguinte é transformar isso em um ritmo que caiba na sua agenda. Um calendário de cinco posts por semana não sobrevive a quem atende o dia inteiro. É nessa hora que muita gente desiste, e por isso escrevemos um texto só sobre como manter presença com um ritmo possível.

Também é a hora de decidir quem executa. Tem gente que prefere contratar uma agência, tem gente que gosta de conduzir sozinha com boas ferramentas, e muitos acabam combinando as duas coisas. Se você está nessa dúvida, o artigo sobre como decidir entre agência e autonomia compara os cenários sem torcer para nenhum lado.

Na Medimetrics, essa ordem orienta a plataforma inteira: o Posicionamento vem antes do Planejamento porque um plano sem identidade só produz mais do mesmo.

Se quiser começar hoje, sem ferramenta nenhuma, separe meia hora nesta semana. Escreva as cinco frases do "Eu acredito que", responda às perguntas sobre o seu público e grave um áudio explicando um tema que você domina. Depois escolha um único ponto de vista desse material e tire dele dois posts bem diferentes, por exemplo uma dúvida respondida e um bastidor do consultório. Publique ao longo de duas semanas e leia com calma os comentários. Eles mostram o que, no seu jeito de comunicar, as pessoas já reconhecem como seu.