O que cada conselho de saúde permite postar nas redes
Antes e depois, preço, depoimento e foto de paciente: as regras de CFM, CFO, CFN, CFP, COFFITO, COFEN e CFFa lado a lado.
Uma clínica integrada em Curitiba reúne dermatologista, dentista, nutricionista e psicóloga no mesmo andar. Elas dividem a recepção, o café e, desde o ano passado, a mesma social media. Numa segunda-feira, a profissional de marketing monta o calendário da semana com o que funcionou bem no perfil da dermatologista: um carrossel de antes e depois, um story com o valor da consulta e um print de elogio de paciente. Aplica a mesma fórmula aos outros três perfis.
Para a dermatologista, com os cuidados certos, aquilo pode estar dentro da norma. Para a nutricionista, o antes e depois é vedado pelo novo código de ética. Para a dentista, anunciar preço continua sendo problema. Para a psicóloga, usar depoimento como propaganda é justamente o que o conselho dela pede para evitar.
Ninguém ali agiu de má-fé. O erro foi supor que existe uma regra única para "a área da saúde". Cada conselho profissional escreve as suas, e elas mudam com frequência. Este texto coloca as principais lado a lado, para você ter uma visão de conjunto antes de abrir a norma da sua profissão.
Vale avisar logo: este guia orienta, mas não substitui a leitura da resolução nem a consulta ao seu conselho regional (CRM, CRO, CRN, CRP, CREFITO, COREN, CRFa). Normas são atualizadas, ganham pareceres e às vezes têm a vigência adiada.
Por que a mesma foto pode ser permitida para um e infração para outro
Os conselhos olham para riscos diferentes. Na odontologia e na dermatologia, a imagem do resultado faz parte da prática clínica, então a discussão gira em torno de como mostrar sem transformar o paciente em vitrine. Na nutrição, o corpo do paciente é o próprio resultado, e o conselho entendeu que exibir essa transformação estimula comparação e promessa. Na psicologia, o vínculo terapêutico e o sigilo pesam mais do que qualquer argumento comercial.
Por isso, copiar a estratégia de um colega de outra profissão é o atalho mais comum para a infração. O post que deu certo para o ortopedista pode render processo ético para a fisioterapeuta que trabalha ao lado dele.
O que vale para quase todo mundo
Existe um denominador comum, e ele já resolve boa parte das dúvidas do dia a dia.
Identificação. Nome e número de registro aparecem no perfil e, em vários conselhos, nas próprias peças. Alguns pedem também a categoria ou a especialidade registrada.
Nada de promessa de resultado. "Resolva sua dor em três sessões", "sorriso perfeito garantido", "emagreça 10 quilos em um mês". Nenhum conselho aceita esse tipo de frase.
Consentimento por escrito. Quando houver imagem, voz ou história de paciente, a autorização precisa estar documentada. Um "pode postar, doutora" no WhatsApp é frágil demais para servir de prova.
Sem sensacionalismo. Título alarmista e paciente exposto em situação de vulnerabilidade são vetados de forma ampla, assim como a autopromoção exagerada.
Respeitando esses quatro pontos, você já evita boa parte dos problemas. Daqui em diante, o que muda de um conselho para outro.
Médicos (CFM 2.336/2023): o que abriu e o que continua fechado
A Resolução CFM 2.336/2023 substituiu a antiga 1.974/2011. Foi publicada no Diário Oficial em 13 de setembro de 2023 e passou a valer em 11 de março de 2024, depois de 180 dias de adaptação. Veio acompanhada de um Manual de Publicidade Médica, que vale a leitura (CFM).
A mudança foi grande. O médico agora pode publicar imagens de antes e depois com finalidade educativa, autorização do paciente e preservação do anonimato. Pode divulgar o valor da consulta, oferecer descontos e fazer campanhas, desde que o desconto não venha amarrado a outra vantagem. Selfies no consultório são aceitas sem sensacionalismo, e repostar o elogio de um paciente também, sem repetição e sem que aquilo vire promessa.
Continua fechado: garantir resultado e participar de publicidade de medicamentos, insumos, equipamentos ou alimentos. Se você quer o detalhe artigo por artigo, escrevemos um texto só sobre o que mudou na publicidade médica com a Resolução 2.336.
Dentistas (CFO 196/2019 e 271/2025): imagem com termo, desconto liberado, preço ainda vedado
Na odontologia, a Resolução CFO 196/2019 liberou selfies e a publicação de imagens de diagnóstico e de resultado final, com Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e apenas de casos atendidos pelo próprio profissional. Imagens do procedimento em andamento continuam proibidas.
O antes e depois é um ponto em que os próprios especialistas em direito odontológico divergem. Há leituras mais abertas e mais restritivas da norma, então trate o assunto como controverso e consulte o seu CRO antes de montar uma série com esse formato. A gente aprofunda essa discussão no post sobre quem pode postar antes e depois e com quais cuidados.
A novidade mais recente é a Resolução CFO 271, de 18 de junho de 2025. Depois de uma Nota Técnica do CADE (14/2025), o conselho retirou do Código de Ética Odontológica (Res. 118/2012) as restrições a descontos e a cartões de desconto. Muita gente leu isso como "o CFO liberou preço". Segundo as análises disponíveis, o art. 44, inciso I, segue vedando anunciar preços, formas de pagamento e serviços gratuitos. Divulgar desconto e anunciar o valor do clareamento no feed são coisas diferentes, e a segunda continua arriscada.
Nutricionistas (CFN 856/2026): antes e depois vedado e regras para IA
O Conselho Federal de Nutrição aprovou um novo Código de Ética pela Resolução CFN 856, de 25 de abril de 2026, que revoga a 599/2018 (CFN). O texto proíbe o antes e depois e a divulgação de resultados de pacientes, o que inclui composição corporal e exames. A proibição vale também para imagens geradas por inteligência artificial, então a simulação de um corpo "depois do plano alimentar" entra na mesma vedação.
O código ainda exige declarar conflito de interesses (a parceria com a marca de suplemento precisa estar clara) e restringe sorteios e promoções.
A vigência está em discussão. Há fontes que citam 4 de junho de 2026 e outras que falam em adiamento para 23 de janeiro de 2027, depois de uma consulta ampliada. Acompanhe o site do CFN e do seu CRN, e vale já ajustar o perfil, porque a direção da norma é clara. A IA, aliás, tende a aparecer cada vez mais nos códigos de ética. Se você já usa alguma ferramenta para escrever legendas, temos um texto sobre como usar IA no conteúdo sem perder a sua voz.
Psicólogos, fisioterapeutas, enfermagem e fonoaudiólogos
Psicologia (CFP)
A referência é a Nota Técnica CFP 1/2022, de 21 de junho de 2022, sobre publicidade nas redes sociais (CFP). Usar depoimento de paciente como propaganda é vedado. Promessas de cura e chamadas como "50% off na primeira sessão" são tratadas como problemáticas. O atendimento on-line é regulado pela Resolução CFP 9/2024, que encerrou o antigo cadastro e-Psi. Em abril de 2026, o CRP-MG publicou uma cartilha sobre publicidade que ajuda bastante na prática.
E o psicólogo responde pelo conteúdo mesmo quando contrata alguém para cuidar do marketing, detalhe que costuma passar despercebido.
Fisioterapia (COFFITO)
A Resolução COFFITO 532/2021 permite imagens, textos e áudios de procedimentos com autorização prévia do paciente. Cada material precisa trazer nome, número do CREFITO e data. Divulgar caso atendido por outro profissional e usar depoimento ou carta de agradecimento para autopromoção é vedado, e análises da norma apontam que o descumprimento pode ser tratado como infração grave.
Na prática: a fisioterapeuta pode mostrar o exercício de mobilidade que passou para o paciente do joelho, com autorização e identificação. O vídeo do paciente agradecendo "a melhor fisio da cidade" fica de fora.
Enfermagem (COFEN)
A Resolução COFEN 554/2017 é das mais restritivas (COFEN). Veda imagens de pacientes em redes sociais e no WhatsApp, a exposição de rosto ou corpo fora de finalidade acadêmica e o antes e depois que sugira garantia de resultado, salvo autorização expressa. Exige nome, número do COREN e categoria profissional.
Fonoaudiologia (CFFa)
A Resolução CFFa 756/2024, publicada no DOU em 23 de janeiro de 2025, pede consentimento por escrito para usar imagem, vídeo ou áudio de paciente (Normas Brasil). Nome, profissão e CRFa devem aparecer em posts e lives. O título de especialista só pode ser usado se reconhecido pelo CFFa, e o responsável técnico responde pelas postagens do local onde trabalha.
Tabela rápida: antes e depois, preço e depoimento por conselho
| Conselho | Antes e depois | Preço e desconto | Depoimento de paciente |
|---|---|---|---|
| CFM | Permitido com fim educativo, autorização e anonimato | Valor da consulta e descontos permitidos | Repost de elogio sem repetição e sem promessa |
| CFO | Controverso; resultado final só com TCLE | Desconto liberado; anúncio de preço segue vedado | Evitar uso promocional |
| CFN | Vedado (inclusive com IA) | Sorteios e promoções restritos | Vedada divulgação de resultado de paciente |
| CFP | Não se aplica à prática | Chamadas promocionais problemáticas | Vedado como propaganda |
| COFFITO | Imagem de procedimento com autorização | Consulte o CREFITO | Vedado para autopromoção |
| COFEN | Muito restrito, só com autorização expressa | Consulte o COREN | Imagem de paciente vedada nas redes |
| CFFa | Imagem só com consentimento escrito | Consulte o CRFa | Consentimento escrito obrigatório |
A tabela simplifica de propósito. Use como mapa e confirme os detalhes na norma.
Quando a dúvida persistir
Antes de publicar um formato novo, abra a resolução vigente no site do conselho federal e procure o capítulo de publicidade, que costuma ser curto. Depois, veja se o seu conselho regional tem cartilha ou parecer sobre redes sociais. CRM, CRO e CRP de vários estados mantêm materiais assim, mais fáceis de ler do que a norma. Se ainda restar dúvida, mande a pergunta por escrito ao regional. A resposta formal protege você e vira referência para a equipe.
Se você trabalha com uma social media ou agência, envie a ela o link da norma da sua profissão, e não da profissão do colega de sala. Parece óbvio, e foi exatamente o que faltou à clínica de Curitiba lá do começo. Na Medimetrics, as regras do conselho de cada profissional entram no planejamento desde o início, para que o conteúdo já nasça dentro da norma.
Saber o que é permitido resolve metade do problema. A outra metade é descobrir o que faz sentido você comunicar, e é disso que trata o nosso texto sobre conteúdo com a sua cara.