Antes e depois nas redes: quem pode postar e com quais cuidados
Médico pode, nutricionista não, dentista depende. Como cada conselho trata o antes e depois e o que fazer para não errar.
A paciente volta para o retorno de seis meses, se olha no espelho do consultório e pede: "Posta minha foto, doutora. Quero que todo mundo veja". A dermatologista tem as duas imagens no computador, tiradas na mesma luz e no mesmo ângulo. O pedido é sincero, e a vontade de mostrar o trabalho também.
Mesmo assim, ela trava antes de abrir o Instagram. Não sabe se pode, nem se precisa de algum papel assinado. E desconfia que, se fosse uma nutricionista atendendo a mesma paciente, a resposta seria outra.
Seria mesmo. Essa diferença entre profissões explica por que a dúvida aparece tanto.
Por que o antes e depois virou a dúvida mais comum
Vários conselhos de saúde revisaram suas regras de publicidade nos últimos anos, e o antes e depois foi justamente o ponto em que eles mais se afastaram uns dos outros. O CFM passou a permitir em 2023, com condições. O CFN foi no sentido contrário e vetou de vez no código de 2026. No meio do caminho ficou o CFO, com uma norma que juristas leem de jeitos diferentes. Numa clínica multiprofissional, onde dentista e nutricionista dividem a mesma recepção, cada um responde a essa pergunta de um jeito.
Se você quer o panorama completo, com todas as regras de publicidade e não só as de imagem, montamos o quadro do que cada conselho permite postar. Aqui o assunto é a foto do paciente, profissão por profissão.
Médicos: permitido, com fim educativo, autorização e anonimato
A Resolução CFM 2.336/2023 passou a aceitar o antes e depois dentro de condições bem definidas. A imagem precisa ter fim educativo e estar ligada à especialidade que o médico tem registrada no conselho. Um clínico geral que posta resultado de procedimento estético, por exemplo, fica fora da regra.
O ponto que mais gente ignora é o texto que acompanha a foto. A resolução pede que a publicação traga a indicação terapêutica e a evolução do caso, e que mostre tanto os resultados bons quanto os que não saíram como esperado, além das possíveis complicações. Uma foto com a legenda "olha que resultado" não cumpre a norma.
A imagem também não pode ter edição nem filtro. O paciente precisa autorizar a publicação e pode retirar essa autorização depois, e quem aparece tem o anonimato e o pudor preservados.
Vale lembrar que a resolução trata de ética profissional e não muda a responsabilidade civil do médico. Se o paciente se sentir lesado por uma publicação, estar dentro da norma do CFM não protege ninguém de um processo. O portal do CFM detalha as condições, e o Migalhas comentou o alcance jurídico da mudança.
A resolução trouxe outras novidades além da foto. Se você é médico, leia também o que mais mudou na publicidade médica com a 2.336, incluindo o que agora vale para divulgação de preços e para selfies.
Dentistas: imagem de resultado com termo de consentimento, e um ponto controverso
A Resolução CFO 196/2019 liberou a divulgação de imagens de diagnóstico e de resultado final de tratamento, desde que o paciente assine o termo de consentimento livre e esclarecido e que o caso seja do próprio profissional. O sorriso que um colega fez, ou um caso tirado de banco de imagens, não pode ir para o seu perfil.
A mesma norma proíbe mostrar tecidos biológicos e o procedimento em andamento, salvo em publicação científica. Aquele vídeo do preparo do dente, com sangue e instrumental à mostra, não entra no feed.
Até aqui há consenso. A divergência começa no antes e depois propriamente dito. Parte dos intérpretes entende que a resolução permite a comparação, já que libera diagnóstico e resultado. Uma análise publicada pelo Conjur lê no artigo 13, parágrafos 2º e 3º, uma vedação à montagem lado a lado. E os CROs regionais nem sempre concordam entre si.
Na dúvida, consulte o CRO do seu estado antes de montar a comparação e guarde a resposta por escrito. Repare também que o dentista que posta só antes e depois corre um risco que vai além do ético: o perfil dele fica parecido com o de todos os outros que fazem a mesma coisa.
Nutricionistas: o novo código veda, inclusive com imagens feitas por IA
Aqui a resposta é mais curta. O Código de Ética e de Conduta do Nutricionista, aprovado pela Resolução CFN 856/2026 em 25 de abril de 2026, proíbe o antes e depois e a divulgação de resultados de pacientes. Entram nisso composição corporal, bioimpedância, exames laboratoriais e qualquer imagem que mostre a transformação de alguém atendido. A proibição vale também para imagens geradas por inteligência artificial, detalhe que o próprio CFN destacou e o Metrópoles repercutiu.
A data de entrada em vigor do novo código foi discutida, e houve notícias de adiamento, então confira a vigência no site do CFN. Na prática, muda pouco para quem já seguia as regras. O código de 2018, no artigo 58, já proibia o antes e depois que atribuísse o resultado ao nutricionista.
Se você usa IA para criar imagens ou textos, o tema pede cuidado à parte. Escrevemos sobre isso em como usar IA no conteúdo de saúde sem perder a sua voz.
Fisioterapia, enfermagem e fonoaudiologia
Fisioterapeutas
A Resolução COFFITO 532/2021 permite divulgar imagem de procedimento com autorização prévia do paciente e pede que a publicação identifique o profissional com nome, número do CREFITO e data. Não encontramos no texto uma vedação expressa ao antes e depois, mas também não há liberação clara. Antes de postar a evolução de amplitude de movimento de um paciente, uma consulta ao CREFITO da sua região resolve a dúvida.
Enfermagem
A Resolução COFEN 554/2017 é mais restritiva. Os incisos X e XI do artigo 4º vedam a exposição de imagens de pacientes em redes sociais, e o inciso XIV proíbe o antes e depois que sugira garantia de resultado, salvo autorização expressa. Quem atua com estética ou com tratamento de feridas precisa ler esses trechos com calma.
Fonoaudiologia
O guia de publicidade do CFFa, ligado à Resolução 756/2024, exige consentimento por escrito para qualquer imagem de paciente, mas não trata especificamente do antes e depois. Enquanto não houver regra, o caminho prudente é ter a autorização assinada e usar a imagem para explicar, nunca para prometer resultado.
Consentimento por escrito e LGPD: o que guardar
Existe uma regra que vale para todas as profissões e fica acima dos conselhos. Para a Lei Geral de Proteção de Dados, informação de saúde é dado pessoal sensível (art. 11). Uma foto que mostra o resultado de um tratamento revela algo sobre a saúde da pessoa, mesmo sem nome na legenda.
Por isso o consentimento precisa ser específico e destacado, separado do contrato de atendimento. Um "pode postar, sim" dito no corredor ou num áudio de WhatsApp não basta. Como lembra este guia de adequação de clínicas, a autorização verbal é frágil justamente quando você mais precisaria dela.
Um bom termo de uso de imagem costuma ter:
- quais imagens serão usadas e em quais canais (Instagram, site, palestra);
- a finalidade, descrita de forma clara;
- por quanto tempo a autorização vale;
- como o paciente pode revogar, e o que você faz quando ele revogar.
Guarde o termo assinado junto ao prontuário, com a data e a versão da imagem autorizada. Se o paciente pedir a retirada, apague o post e registre que fez isso. O artigo do Jus.com.br e os materiais do Jurídico Certo sobre foto de paciente e LGPD ajudam nos detalhes.
Como contar a evolução de um caso sem depender da foto
A regra do CFM deixa uma pista útil até para quem não pode postar imagem nenhuma. O que torna um caso educativo é a história ao redor dele: por que aquele tratamento foi indicado, quanto tempo levou, o que o paciente precisou fazer em casa, o que poderia ter dado errado.
Esse conteúdo dispensa a foto. A nutricionista que não pode mostrar o corpo da paciente consegue contar, com autorização e sem identificar ninguém, como foi reorganizar a alimentação de alguém que trabalha em turnos. O fisioterapeuta explica as fases da reabilitação de um joelho com um modelo anatômico ou um desenho no quadro. E o dentista pode mostrar o planejamento digital do caso em vez do rosto do paciente.
Formatos assim mostram como você pensa, coisa que o antes e depois raramente faz. Duas fotos de resultado se parecem em qualquer perfil, enquanto o seu raciocínio clínico e o seu jeito de explicar só existem no seu. Daí nasce o conteúdo com a sua cara, aquele que faz o paciente sentir que já conhece você antes da primeira consulta.
Na Medimetrics, a etapa de planejamento leva em conta as regras do seu conselho ao sugerir temas e formatos, para que a evolução de casos entre no calendário do jeito certo para a sua profissão.
Um próximo passo para esta semana
Abra a pasta de fotos de pacientes no computador ou no celular e escolha alguns casos. Para cada um, confira se existe termo de consentimento assinado e específico para redes, se a imagem está sem edição e se a sua profissão permite esse tipo de publicação hoje. Onde a resposta for "não sei", comece por ali: atualize o modelo de termo e confirme a regra com o seu conselho. Enquanto espera, escreva a história de um desses casos sem usar a foto e veja como ela fica no feed.